A ideia de gêmeos com pais diferentes parece improvável, mas a medicina reconhece que isso pode acontecer em situações raras. O fenômeno recebe o nome de superfecundação heteropaternal e ocorre quando dois óvulos liberados no mesmo ciclo menstrual são fecundados por espermatozoides de homens distintos em intervalos próximos.
O tema voltou a chamar atenção após relatos recentes de mulheres latino-americanas que descobriram, por exame genético, que os filhos gêmeos tinham paternidades diferentes.
Uma jovem de Goiás descobriu em 2022 que os filhos gêmeos tinham pais diferentes após exame de DNA e este ano, um novo caso na Colômbia trouxe mais uma vez luz sobre o tema. Embora desperte curiosidade, especialistas ressaltam que se trata de uma ocorrência incomum e fora do padrão das gestações gemelares.
O que é superfecundação heteropaternal
A superfecundação heteropaternal acontece quando a mulher libera mais de um óvulo na mesma ovulação ou em intervalo muito próximo dentro do ciclo fértil e mantém relações sexuais com parceiros diferentes.
Se cada óvulo for fecundado por um espermatozoide distinto, a gestação gemelar pode ocorrer com pais diferentes. De acordo com a ginecologista Fernanda Nassar, de São Paulo, o fenômeno depende de uma combinação específica de fatores biológicos e de tempo.
“A superfecundação heteropaternal ocorre quando a mulher libera dois óvulos durante o período fértil, aliado à fecundação realizada por parceiros diferentes em um curto intervalo de tempo. Na ocasião, cada espermatozoide fecunda um óvulo”, afirma. Segundo ela, os registros descritos são extremamente raros.

Para que a fecundação ocorra, óvulos e espermatozoides precisam estar viáveis no trato reprodutivo feminino. A ginecologista e obstetra Claudiane Garcia de Arruda, também de São Paulo, esclarece que o tempo fértil é determinante.
“Uma ou mais relações sexuais feitas no período em que as células germinativas estão viáveis pode, sim, resultar em gestação gemelar de parceiros diferentes”, diz.
Em geral, o óvulo permanece apto à fecundação por cerca de 12 a 24 horas após a ovulação. Já os espermatozoides podem sobreviver por até cinco dias no aparelho reprodutor feminino, o que amplia a janela fértil.
Na maior parte das vezes, a suspeita não surge durante a gravidez. A confirmação costuma ocorrer após o nascimento, por meio de exame de DNA. Claudiane afirma que o diagnóstico depende do teste genético.
“Essa comprovação só é feita com exames de DNA. Pode ser depois do parto ou, se houver necessidade antes, por meio de amniocentese, com retirada do líquido amniótico para análise”, explica.
Em alguns episódios, a investigação começa quando os bebês apresentam características físicas diferentes ou quando há questionamento judicial de paternidade.
Há mais riscos para a gestação?
Os especialistas explicam que a principal atenção médica costuma estar ligada à própria gravidez gemelar, que exige acompanhamento mais próximo no pré-natal. A gestação de gêmeos pode elevar o risco de:
- Parto prematuro;
- Pressão alta na gravidez;
- Restrição de crescimento fetal;
- Outras intercorrências já conhecidas da obstetrícia.
Por isso, o acompanhamento costuma ser mais rigoroso do que em gestações únicas. Além de raro, o fenômeno reúne genética, fertilidade e coincidência biológica. Por isso, costuma surpreender muitas pessoas.
Fernanda lembra que o assunto ainda é pouco discutido. Segundo a médica, justamente por ser pouco conhecido, o tema pode gerar dúvidas sobre fertilidade e funcionamento do corpo feminino.
Embora incomum, a superfecundação heteropaternal mostra que a reprodução humana pode apresentar situações inesperadas — e que exames modernos ajudam a esclarecer casos antes difíceis de comprovar.
Fonte: www.metropoles.com


